sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Música e proximidade com o divino


Pediram-me para escrever sobre a relação de música e religião. De fato não tenho muita bagagem para discorrer sobre o assunto, porém não poderia recusar o convite em se tratando de uma pessoa tão querida e de algo que me proporciona tanto prazer: escrever.

Confesso que não havia feito nenhuma reflexão até o momento em que Fabrício me pediu para escrever sobre o tema, contudo deparo-me com um turbilhão de especulações a respeito.

Poderia falar do candomblé, afinal é uma das religiões mais antigas e que tem como fundamento do ato de cultuar divindades a música e a dança. Mas falta-me conhecimento de causa, vivência. Por isso atenho-me a experimentações que tive com realidades mais próximas a minha.

Começo apresentando a minha visão de religião. Estudei em colégio católico durante toda a infância, fui batizado e fiz primeira eucaristia, porém não sou adepto do catolicismo por motivos práticos e pessoais que não têm necessidade de serem discorridos aqui. Tenho alguma formação e afinidade com a doutrina espírita e um apreço e certo gosto pela cultura africana como um todo.

Durante toda a infância freqüentei missas e sermões católicos, alguns voluntariamente, entretanto, na maioria das vezes por falta de opção. De uma forma bem pessoal não conseguia acompanhar toda a rotina daquele culto a fé, era exaustivo demais. Leituras, pregações, sermões, conselhos, lições e tantos outros falatórios e frases pré-decoradas que lembravam uma sabatina de uma prova oral. Lembro-me de muitas crianças, como eu, que eram mandadas brincar nos arredores da igreja, onde aconteciam as missas, já que as mães não conseguiam conter tanta inquietude.

Minha primeira comunhão foi repleta de músicas, canções que dinamizavam a cerimônia, talvez para aplacar a euforia infantil daqueles que deveriam permanecer ali durante mais de uma hora esperando o momento de receber pela primeira vez o “corpo de Cristo”. Sim, hoje penso que foi uma forma lúdica de levar a cerimônia sem que caísse no descaso, como toda brincadeira termina por cair. Funcionou. Entre aulas de música e seleções para solistas os ensaios e a cerimônia correram divinamente. (rs)

Depois disso, outras poucas missas tiveram a presença dos iniciados na comunhão com o divino.

Com a adolescência e toda a sua euforia em conquistar o mundo, só voltei a um ambiente religioso na época do cursinho por convite de uma amiga. Era uma celebração batista, nunca havia estado em uma. Impressionei-me com a quantidade notavelmente superior de cantigas entoadas durante a cerimônia. Elas misturavam-se as pregações e muitas eram de uma musicalidade admirável, nada que se comparassem as apáticas conhecidas por mim. Não imaginaria algo assim.

Percebi com o tempo que religiões com uma doutrina semelhante em conteúdo, mas diferente em postura, se comparadas à católica, possuíam um arsenal maior de musicalidade do que eu estava habituado. E não se tratavam de trechos cantados de uma cerimônia, mas, sim, de canções como quaisquer outras. Canções com letras, melodias, ritmos que vão do lírico ao hip-hop.

Alguém já parou para se perguntar o quanto a música aproxima pessoas de diferentes classes sociais, níveis de escolaridade, padrão financeiro, entre muitos outros fatores?

Não importa quem está ao lado de quem, de onde vem, o que possui, ou qualquer outro tipo de generalidade que as diferenciem, cantando todos se igualam como num coro que formasse uma só voz, com um mesmo propósito: louvar o seu Deus tendo ele o nome que for.

Essa foi a jogada. Acabar com a monotonia e unir aqueles que buscam conforto para seus problemas procurando apoio na fé. Religiões americanas já trabalhavam música como forma de oração. Essa moda chegou ao Brasil, primeiro nas instituições consideradas pelo Vaticano menos ortodoxas e, agora, pela católica.

Missas cantadas, padres cantores, DVDs que renovam a fé através de canções de louvor, e pensar que há algum tempo tudo não passam de “améns”. A música envolve, liberta, acalma e já é usada, inclusive, como terapia, por que não utilizá-la como artifício para renovar a fé?

A música toma o lugar de oração, entoando letras glorificantes os fies se deixam envolver pelo sentimento de elevação de suas adorações, pedidos, súplicas, se aproximam de Deus, seja ele Jesus, Jeová, Oxalá ou qualquer outro nome que receba. A música como forma de oração conecta o ser humano a sua concepção de força maior, responsável pela gestão do universo e tudo que há nele. Envolve numa espécie de transe quem canta, elevando seus pensamentos a única divindade capaz de amenizar suas angústias.

Se existe de verdade um Deus? Isso não serei eu a responder, afinal acredito que exista, sim, uma energia maior que o pensamento, capaz de mover as famosas “montanhas”. A essa energia chamam fé. Fé em que? Isso cabe a cada um decidir, ou escolher, ou encontrar, não sei. Mas a certeza é de que a música como mecanismo para aproximar o humano ao divino tem contribuído para a renovação das instituições religiosas, para a volta de seus seguidores e como refúgio para o sofrimento de um mundo tão massacrado como este no qual vivemos.

Para terminar, gostaria de previamente desculpar-me com aqueles que, de alguma forma, possam ter sentindo-se ofendidos com algum trecho do texto que acaba de ler. Entretanto, lembro que todo o conteúdo do mesmo, por se tratar de um tema repleto de interpretações pessoais, não é para ser tomado como verdade absoluta. Apenas é a explanação de pensamentos MEUS a respeito de uma proposta lançada sobre a ligação entre música e religião.

Alexandre Rodrigues

domingo, 21 de junho de 2009

Dançando no MaPA

Das piruetas aos cliques, dos palcos para a Rede, a dança contemporânea deixa as salas espelhadas para invadir o ciberespaço.

A dança contemporânea tem seu inicio marcado na década de sessenta nos EUA com a criação da Dança Moderna, na medida em que pretendia romper com os padrões rígidos da dança clássica. Entretanto, ela diferencia-se da moderna por não obedecer a técnicas e por não ter um modelo/conceito de corpo ideal. A dança contemporânea passa a ver o bailarino não como uma máquina de reprodução de movimentos, mas da a ele a autonomia de interagir com a coreografia, torna-o investigador de sua proposta. Assim, a dança deixa de ser algo apenas reproduzido, passa a ter papel social, questionador, incitador de pensamentos.

A Professora Doutora Ivani Santana, conceituada por pesquisas que relacionam dança contemporânea e tecnologia, vendo a necessidade de uma maior apropriação do espaço virtual para o desenvolvimento da pesquisa em dança criou o Mapa e Programa de Artes em Dança Digital (MaPA D2). O projeto tem como objetivo cadastrar e interligar pesquisadores e artistas do ramo em uma rede de compartilhamento de trabalhos acadêmicos.

Ivani assina projetos como: Poética Tecnológica na Dança: Processamento da Imagem em Tempo Real (início em 2004); Grupo de Dança Contemporânea (2004/2005); Corpo Mídia Lab (2005); A.L.I.C.E. Apropriação de Linguagem Interativa no Espaço (2006/2007).

Segundo Vládia Queiroz, responsável pela Gerência de desenvolvimento, “o projeto permitirá que pesquisadores tenham acesso a conteúdos referentes ao seu trabalho, que por sua vez, podem ser foco de outro em alguma parte do globo”.

Entretanto, o MaPA restringe-se a interessados em trabalhos acadêmicos da área de dança que façam uso de tecnologia. Sendo assim, o MaPA segue o conceito de ser uma plataforma virtual para a difusão e apoio educacional, tecnológico e mercadológico do campo da dança e da performance com mediação tecnológica. Todo esse mecanismo esta a disposição para 30 países de língua portuguesa e espanhola.

O projeto também tem como critério a especificação entre pesquisadores acadêmicos, àqueles que realizam trabalhos/pesquisas no âmbito das universidades ou instituições de formação superior, e artistas interessados em investigações no campo da dança/performance com utilização de mídias tecnológicas.

O lançamento do MaPA D2 ocorreu no dia 29 de abril do ano corrente no Pavilhão de aulas da federação (PAF I) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Para Vládia, “o lançamento do MAPAD2 foi muito significativo para todos que trabalham com dança mediada por tecnologia. Fizemos uma videoconferência com o grupo Konic, da Espanha que foi descentralizada em vários pontos remotos pelo Brasil e também um ponto em Portugal. A próxima videoconferência será em junho e será com Portugal, com o Prof. Doutor Daniel Tércio e um grupo de pesquisadores de lá, no mesmo formato anterior, e dessa vez incluindo mais pontos em videoconferência”.

Alexandre Rodrigues

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Carta a um amigo.

A menos de uma semana fui surpreendido por um convite de um amigo – talvez ele ainda nem saiba que o considero como tal – para escrever um texto em seu blog. Confesso que, junto com a excitação, náuseas me atacaram em socos o estômago. Escrever? Sobre o quê? Para ele não interessava. Tive liberdade para escolher o tema e a forma com que iria discorrer sobre ele, o que só aumentou a minha aflição. Por fim, deixei que a proposta caísse no esquecimento momentâneo até que se fizesse madura por si e viesse à tona.

Em uma das minhas caminhadas para “espairecer” – seria mais correto chamar de uma tentativa desesperada de pôr os pensamentos em ordem – deparei-me com questionamentos que, no correr de duas semanas permeavam todo o meu mundo: amizade.

Alguém, que não me recordo agora – penso em Cazuza, mas não consigo ater-me se foi uma citação usada por ele ou dele – usou uma expressão que em suma afirma que amigos não se conquistam, reconhecem-se. E debaixo da chuva que me fazia meio doente (rs), fui jogado contra uma parede de verdades, minhas, mas verdades, que me fazem escrever agora.

O que caracteriza um amigo? O que o diferencia de um não amigo? Um não amigo é um inimigo? Amigo é pra sempre? E o sempre? É pra sempre?

Não, não existem verdades para tantas perguntas. Podem, sim, existir pensamentos e conclusões íntimas para quem as questiona. Talvez essas verdades sejam suficientes, talvez todos estejam conformados com elas para não ter que buscar outras que possam não ser tão suaves, ou ainda seja preguiça, afinal para que questionar uma dita verdade que se faz senso comum?

Mas, verdades a parte, voltemos ao tema sobre o qual resolvi escrever.

Deparei-me com uma situação a qual jamais poderia imaginar, ou poderia, de qualquer forma não imaginei. Um amigo, ao menos o considerava assim, que se dizia conhecer a pessoa que agora escreve, com seus inúmeros defeitos e alguma qualidade, descarregou um caminhão de ofensas e balbucios sem nenhuma preocupação e/ou sutileza. Embriagado pela raiva, companheira fiel do orgulho e sempre a espera de momentos de descontrole, não mediu esforços para machucar quem tanto dizia gostar. Enfim me perguntei: seria esse o comportamento de um amigo?

Não pretendo expor o caso a estudo, muito menos justificar ou livrar-me de culpa, não é um julgamento e a ninguém cabe o posto de juiz, réu e/ou júri. Apenas a idéia do fato explica a escolha do assunto.

Feita a pergunta por incontáveis vezes, deparei-me com outra vilã: a expectativa. Talvez a minha maior decepção não tenha sido a sua reação, mas a expectativa não correspondida da imagem criada por mim, dele. Parece um pouco complicado e até um pouco confuso, pra não dizer neurótico, mas não chega a tanto. O que foi ferido não foi tão gravemente o eu que havia sido destratado, mas o íntimo que esperava uma reação diferente, igual a minha numa possibilidade inversa, contudo uma diferente da que ocorreu.

Esse fato martelou a minha inquieta e questionadora consciência a respeito de quantas expectativas eu tinha, ou se tinha, criado a respeito de tantos outros como ele. E sim, havia muitas e absurdas.

Fiquei a pensar o quanto seria traumatizante se todos eles resolvessem agir diferente do que eu esperava, nossa, deveria suicidar-me (rs).

Porém, o que mais me enlouquecia nesse emaranhado de pensamentos – o qual deve estar enlouquecendo você que lê – era como essas pessoas ocuparam o posto de amigos e o que fizeram para isso.

Nada.

Absolutamente nada.

Posso conseguir explicações para cada uma delas. Estórias lindas, divertidas, pornográficas, cômicas, mas nenhuma delas justificaria a amizade. Qual a necessidade de justificar algo que não precisa ser justificado? Mantemos alguém por perto quando esse mesmo alguém nos faz bem. Apesar de algum outro pensador ter dito para mantermos os inimigos mais perto o quanto pudesse, são os amigos que colocamos ali no posto de guarda da nossa vida.

Podemos dividi-los em grupos, categorias, tipos, chamem como quiser. Há aqueles amigos de farra, sempre conosco em todas as bagunças, bebedeiras, esquemas. Há os conselheiros, não nos vemos sempre, mas, com certeza, sempre têm algo muito profundo a ser dito num momento difícil. Há os do trabalho, horário de expediente, talvez até um happy hour, mas não muito além disso. Sim, claro, os amigos dos estudos, colégio/faculdade, sempre na mesma “panelinha”, livrando um que não contribuiu para a tarefa em grupo, mas não merece ficar com zero. Não podemos esquecer os amigos de infância, com quem dividimos um mundo de fantasia, de descobertas e, agora, de lembranças saudosas. E, por fim, o famoso “amigo do peito”, também chamado de “amigo irmão”, aquele que dizemos que será amizade eterna, que estava conosco em nossos maiores porres, em nossas revoltas com a vida, quando conseguimos algo que tanto desejamos, que será nosso (a) padrinho/madrinha de casamento e/ou de nossos filhos, alguém que sempre podemos contar.

Todos eles têm seu espaço, nós os oferecemos e sem cobrar por isso. Apesar de poder defini-los ou classificá-los, nunca os diferenciamos, serão sempre parte de nós, pois amizade é troca, não importa o tempo que dure. Propusemos-nos a isso, receber do outro e dar de nós, sem maiores intenções. Decepcionamos-nos simplesmente por exigir a única coisa que não poderíamos ter: perfeição.

Amigos, apesar de serem nossos super-heróis por diversas vezes, são humanos, homens, errôneos e têm esse direito. Descobrir isso pode ser chocante, mas, também, se faz libertador. A amizade pode não durar para toda a eternidade, contudo estará registrada em nossas atitudes, pensamentos, personalidades e visão de quem somos e, principalmente, do amigo que somos.

A você meu amigo, meu muito obrigado.

Alexandre Rodrigues

terça-feira, 19 de maio de 2009

Coisas de mulher

Toda a minha curta existência foi marcada por “não pode” isso, aquilo, aquilo outro. Muitas desculpas eram usadas para justificar tal imposição, mas a principal delas era: isso é coisa de mulher.

Vivemos numa sociedade machista, isso é fato. Ela pode estar evoluindo, mas nada significativo ainda. Tenho para mim que o próprio machismo parte do sexo oposto, mas isso são filosofias de uma mente enlouquecida (rs).

Pois bem, como observador que sou, às vezes até inconveniente, tenho me questionado o quanto essa associação de feminino e masculino fica apenas no âmbito do discurso. Parece loucura não é? Talvez seja, mas uma loucura perturbadora.

Vamos aos fatos. Dizem que mulher é fofoqueira, adora falar da vida dos outros, saber o que se passa no dia-a-dia das estrelas de novela e são capazes de conversar durante horas, beirando a exaustão, mas sem nem perceberem. Enfim, típico do universo feminino. Será?

Paremos para analisar. O que acontece numa roda de amigos numa situação típica: a mesa de um bar? Confesso que até então nunca havia parado para reparar. Porém, não é uma realidade muito diferente de algumas amigas num salão de beleza.

Conversa de mulheres:

“Menina! Você viu aquele ator global que se separou daquela atriz super famosa? Um escândalo. Logo eles que formavam um casal tão bonito.”

Conversa de homens:

“Rapaz! Você viu o pé na bunda que aquele jogador levou da namorada dele? Aquele avião, não sei o que ela viu nele, alias sei sim, a conta bancária.”

Sejamos sinceros, há diferença que não seja o linguajar? Mas homens não falam da vida dos outros, apenas comentam assuntos relacionados ao universo masculinos. Piada. Homens falam sim, da namorada do amigo, com quem estão preocupados, da gostosona que esta saindo com um “Zé ruela”, especulando que o motivo seria seu rendimento mensal, quem é o melhor jogador pro seu time e quais as mudanças que deveriam ser feitas para o melhor aproveitamento no campeonato, carros, cachaças e tantas outras futilidades.

Mas não, são todos assuntos sérios. Homem não é fútil, isso é coisa de mulher. Rs.

Não, não estou aqui levantando nenhuma bandeira feminista, apenas constatado fatos que me levam até uma verdade – tenho usado muito essa palavra – que se faz cega aos olhos acostumados com o sistema brutalmente machista.

Homens também são fúteis.

Continuemos.

Salão de beleza, spas, clínicas de estética, tudo isso é coisa de mulher. Será? Não mesmo. Posso narrar inúmeras experiências de homens que entre seus muitos compromissos diários têm hora marcada com a manicure, ou uma sessão de depilação, um pilling facial. Os menos “afeminados” – termo repugnante mais que condiz com a situação – depilam-se por conta própria, arrancam os pêlos do peito, pernas, e de onde mais tiver incomodando. Cabelos sempre arrumados, com cortes diferentes, pomadas, gel, luzes, relaxamento. Roupas cheias de estilo – muito diferentes da idéia de que em homem basta uma calça jeans e camiseta – brilho, designers diferentes, muita roupa justa, muitas opções de loja e, conseqüentemente, horas em shopping. Mas não, perder tempo em shopping é coisa de mulher. (rs)

Em tempos passados, esse tipo de postura masculina era tido como tendências homossexuais, afinal um homem que quer faz o que uma mulher faz só pode querer se tornar uma – pensamento pequeno esse. Hoje? Não! Longe disso! São metrossexuais, vaidosos, preocupados com a aparência, preocupados em agradar o público feminino.

Não entendo. Então porquê de tanta necessidade em classificar atitudes/gestos em gêneros?

Rótulos são antiquados, estamos na era da liberdade. Podemos, e devemos, escolher o que usamos, o que fazemos, com quem fazemos, com quem nos relacionamos sem a preocupação de sermos julgados por isso.

Não existe mais coisa de mulher. Homens também cozinham, lavam, passam, costuram e tudo isso sem perder a masculinidade que tanto os preocupa demonstrar. Homens também cuidam dos filhos, trocam fraldas, perdem noites sem que substituam o papel da mãe. Homens assistem comédias românticas, dramas, choram com cenas emocionantes, não apenas gostam de ver pancada e sangue. Homens são homens para assumirem o que querem sem temer a interpretação ignorante de quem quer que seja.

Se as mulheres puderam ser homens, saindo de casa para sustentar a família, lutar por espaço no mercado de trabalho, pela igualdade de direitos e mais uma infinidade de outros acontecimentos sem deixar sua feminilidade para trás, porque homens deixariam de ser homens por preocupar-se com aparência ou falar da vida alheia?

Conversar faz bem, cuidar de si tanto quanto. Então sejamos homens para assumirmos nossos atos ainda que eles sejam classificados como coisas de mulher e, ainda mais, para provar que todos que compartilham desse pensamento estão errados.

Alexandre Rodrigues

domingo, 22 de março de 2009

Domingo...

Domingo é um dia preguiçoso. Tudo funciona em modo stand by, até o sol se levanta preguiçoso com um amarelo gelado e um calor quase frio. Nas ruas, praticamente desertas, apenas aqueles que ou procuram diversão matinal, como os famosos babas ou as praias, vão aparecendo em câmera lenta, ou aqueles de quem o trabalho não se desgarra nem num domingo de preguiça.
Talvez seja cultural o fato de o domingo ser para descanço, porém, mais do que descanço é o dia em que, conscientemente ou não, todos querem ser donos de si mesmos. Acordar quando quiser, almoçar se/a que horas quiser, passar o dia todo de pijamas, ou talvez nem levantar da cama. Há, ainda, a possibilidade de curtir a família, um encontro com amigos, situações que durante a semana corrida o tempo, ou a falta dele, não nos dê tempo para aproveitar.
Domingo, também, é dia de introspecção, dia de carência, dia de dengo. O que pode haver melhor que estar com alguém que se gosta, fazendo o que quer que seja, durante todo um dia? Calma, a definição de "alguém que se gosta" é mais abrangente do que somente um parceiro(a), mas uma pessoa com a qual gostaríamos de compartilhar de bons momentos, como um amigo, mãe, filhos, um amor. Nesse dia não precisamos de posturas determinadas, nem seguir algum tipo de conduta. Nos livramos de máscaras e da imagem de um Super Herói dos negócios, da casa, da família e nos é permitido ser "normais", apenas humanos.
Mas não pensem que o domingo é perfeito. Longe Disso. É nos domingos que está registrado o maior índice de suicídios (rs). Brincadeiras a parte, o domingo pode não ser tão bom assim para os solitários. Quando tudo é feito para compartilhar de momentos íntimos, estar só pode ser algo complicado. Para esses, a semana agitada é uma fuga para a solidão que espera paciente pelo momento certo de se fazer notar. Entretanto, nada dura para sempre e ela sabe que mais cedo ou mais tarde será substituída por momentos intensos de felicidade, afinal até os super heróis tem a esperança e a obsseção pelo "felizes para sempre".
Por fim, como tudo que é bom, o domingo também acaba, mas não será o último. A vida segue um movimento cíclico levando tudo que há nela a participar dessa dança. Então, para os pessismistas, sim, amanhã é a tão temida segunda-feira, mais um início de mais uma semana que culminará em mais um preguiçoso domingo.
Alexandre Rodrigues

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A indústria das "ologias"

A indústria do cinema parece ter perdido a criatividade. Uma onda de reproduções de sucessos literários e as continuações intermináveis de filmes parece ter virado moda.

Depois das famosas trilogias, agora a nova “onda” é a competição pela quantidade de reprodução que uma mesma criação pode alcançar. Parece que todos foram enfeitiçados por algum tipo de magia da continuação, mas até onde essas seqüências conseguem agradar o público?

O primeiro, causa impacto e traz ansiedade pelo segundo; o segundo empolga, ma não supera o primeiro; o terceiro é a explicação, então já não terá o mesmo encanto; o quarto, pra que é mesmo?

Os gêneros terror, suspense e ficção são os campeões no milagre da multiplicação, entretanto não se podem mais considerar exclusivos. Comédias passaram a investir em seqüências, e as comédias românticas agora invertem os sexos dos personagens principais e atualizam a mesma temática já assistida nas salas. Será que as fontes de idéias secaram? Ou da muito trabalho pra escrever algo novo? Ou é mais fácil simplesmente reproduzir?

Acabaram-se os tempos em que ir ao cinema para assistir um bom filme, com conteúdo inteligente, crítica social, lições de moral e que induziam questionamentos pessoais. Agora, restam apenas filmes para serem vendidos, efeitos especiais fantásticos e filmes vazios, com muita cor, mas nenhum perfume.

É fato que para toda regra há exceções e são elas que ainda levam aqueles que gostam de um bom filme a saírem de casa para ir ao cinema e essas exceções é que fazem esse mesmo público a ter esperanças de que o cinema ainda pode voltar aos seus tempos de glória.


Alexandre Rodrigues

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Sexo: Conversa de gente grande

Quem acha que só adultos falam de sexo se engana. Os adolescentes também falam e fazem.


Conversa 1: Alexandre Rodrigues - Posso te fazer algumas perguntas? Preciso mesmo de material para o meu trabalho; sa_gatinha - O que você quer saber?; AR - Tem que idade?; sa_gatinha – 17; AR – Onde reside?; sa_gatinha – São Paulo; AR – Você já possui vida sexual ativa?; sa_gatinha – Já; AR – E com que idade foi sua primeira experiência?; sa_gatinha – Com 15 anos; AR – E os seus pais sabem?; sa_gatinha – Ainda não; AR - Então creio que sexo não seja um assunto bem tratado em casa correto?; sa_gatinha - A minha mãe só fala pra eu me previnir; AR - Mas não conversa sobre sexo, muito menos procura saber da sua vida sexual, é isso?; sa_gatinha – É.
Conversa 2: AR - Podemos conversar?; gatinho_msn – Sobre qual assunto?; AR – Sexualidade Juvenil; gatinho_msn - Você vai fazer as perguntas?; AR – Isso; gatinho_msn – Pode fazer; AR – Você tem que idade?; gatinho_msn – 15; AR – Onde reside?; gatinho_msn – Santa Cruz, Pernambuco; AR – Já possui vida sexual ativa?; gatinho_msn – Ainda não, mas estou no caminho; AR – Poderia me definir a expressão “no caminho”?; gatinho_msn - Estou "ficando" e como você sabe às vezes acontece e às vezes não; AR – Então você ainda não transou “oficialmente”, mas já teve alguma experiência sexual? Refiro-me a sexo oral ou possibilidades similares?; gatinho_msn – Não transei e nem tive qualquer experiência, mas tenho amigos que já tiveram; AR - Entendo, e o fato de seus amigos já terem tido, de alguma forma, te pressiona para que as tenha também?; gatinho_msn - Às vezes sim, pois nas rodinhas de amigos na maioria das vezes só se fala nisso e o cara não ter nada para falar fica complicado; AR – Você e/ou seus amigos conversam com os pais a respeito de sexo?; gatinho_msn - Meus pais sempre tiveram um diálogo comigo, principalmente, a respeito de sexo; AR - Sabia que isso não acontece com todo mundo? Seus amigos também conversam com os pais deles?; gatinho_msn – Sim. Eu sei que isso é para poucos e a maioria de meus amigos não tem esse dialogo com os pais; AR – Você acredita que se os pais tratassem com mais naturalidade o assunto sexo o número de adolescentes grávidas e/ou com DST´s diminuiria?; gatinho-msn - Diminuiria e muito, pois se os pais tivessem o dialogo os jovens não procurariam os amigos para tirar suas dúvidas, afinal são os pais que eles levam a serio; AR - Você conseguiria me definir, para você, o que é sexo?; gatinho_msn – Uma fase da vida.

A realidade da maioria dos adolescentes brasileiros, como mostram os diálogos que percorrem essa página, é recheada de informação e facilidade no acesso a conteúdos variados. Entretanto, o direcionamento educacional e familiar não é proporcional ao volume de informações quando o assunto em questão é sexo. Os diálogos acima foram transcritos de uma sala de bate-papo, na qual não existe nenhum tipo de vínculo entre as partes envolvidas.
Segundo pesquisa realizada no primeiro semestre desse ano com alunos de 270 escolas particulares brasileiras, pelo Portal Educacional, entidade responsável pela aplicação dos questionários, dos 1.383 jovens que participaram 25% tiveram a primeira relação sexual aos 14 anos, 19% responderam que tiveram a experiência com pelo menos cinco parceiros e 22% afirmaram ter perdido a virgindade até os 16 anos. Mais: 14% já fizeram sexo com alguém que conheceram pela internet e 42,3% acharam ter engravidado alguém, no caso dos meninos, ou ter ficado grávida, no caso das meninas.
Os fatores que levam ao aumento desses dados de maneira agressiva não foram diagnosticados ainda, mas especialistas já indicam possíveis culpados, ou agravantes, para esta situação. A psicóloga Cristiane Vieira, formada pela faculdade Ruy Barbosa, aponta as mídias audiovisuais como excitadoras do público juvenil para o ato sexual. Segundo ela, “a mídia passa uma visão às vezes romântica e irreal da iniciação sexual, dificilmente existe o apelo do uso do preservativo e as conseqüências do seu não uso, e sim do quão mulher, feminina se sente a adolescente e o quão viril se sente o adolescente. Mostram-se jovens belos que tem uma sexualidade livre, aberta, e sem responsabilidade, o apelo ao exercício da sexualidade é crescente, é só olhar as novelas, os filmes, as séries americanas”.
Teorias à parte, o fator concreto para essa demanda de jovens irresponsavelmente ativos no que diz respeito à vida sexual não se dá pela falta de informação, pois esta existe, mas, sim, pela falta de naturalidade com que o assunto é tratado em ambientes ditos “convencionais”, como o familiar e o escolar. Quando se fala em educação sexual, vêm à tona os preconceitos que permeiam a vida de muitos indivíduos fazendo desse um assunto praticamente incabível para uma conversa a se ter com filhos. A falta de diálogo leva o jovem a sanar suas inúmeras dúvidas com amigos, sites de conteúdo adulto, ou qualquer outro meio que, ao invés de esclarecê-lo, o pressionará a testar esses conhecimentos na prática, é o que afirma Cristiane.

Síndrome do “meu chefe mandou”

Além da falta de comunicação, entra em cena uma outra perspectiva um tanto quanto delicada: o convívio em um grupo social, que para os meninos a pressão é ainda maior. Remetendo à idéia da brincadeira “meu chefe mandou”, comum na infância dos, hoje, adultos, em que uma criança era escolhida e considerada o chefe e os demais eram encarregados de copiar tudo que ele fizesse. É assim, também, em um grupo de amigos, no qual aquele que primeiro perdeu a virgindade ou tem uma vida sexual mais ativa entre eles é idolatrado pelos companheiros e transforma-se numa espécie de exemplo a ser seguido pelos demais. Todo esse endeusamento já é comum até por um fator histórico, no qual a imagem de virilidade sempre fora atribuída ao homem fértil, ao garanhão e, usando os termos atuais, o “pegador”. Já entre as meninas, toda a construção histórica da mulher, símbolo da feminilidade, da doçura, vem dando lugar a sensualidade e independência trazida pelo feminismo. As meninas que, antes, tratavam a virgindade como um troféu a ser carregado até a noite de núpcias, hoje igualam-se aos meninos diante de uma vida sexual agitada e com grande número de parceiros. Entre elas, também, há a figura forte, representada pela mais ativa sexualmente, porém, mais atuante do que a idolatria, é a censura contra as que se mantêm virgens por um tempo maior do que, pra elas, considerado normal (idade essa entre os 15 e os 17 anos).
Para Cristiane, “existe hoje uma liberação sexual mais intensa do que há alguns anos. Atualmente, os jovens iniciam sua vida sexual pra se sentirem aceitos dentro do seu grupo social. A curiosidade sobre a sexualidade, que é inata do humano, tem hoje uma situação mais favorável para ser vivenciada, pois não há mais uma preocupação com a virgindade feminina, sendo esta até ridicularizada algumas vezes”.
E vilões não faltam para creditar ainda mais tensão nessa luta contra uma vida sexual monótona. Em chats, a qualquer hora do dia é possível encontrar um enorme contingente de jovens distribuídos em salas de conteúdos que vão desde a localidade onde moram, passando por faixa etária desejada, até ambientes nos quais é possível alem de conversar ver fotos e vídeos de conteúdo adulto. Os nicks (apelidos usados como identificações) são dos mais variados, alguns singelos, outros pornográficos que se encontram por todo tipo de assunto em comum, e o mais comum deles: sexo.

Naturalidade

Diante de tantos instrumentos contra uma vida sexual saudável para os jovens, a pergunta seria: o que fazer para impedir toda essa mobilização a favor do sexo na adolescente? A resposta é simples: nada. Baseado no depoimento de especialistas, não há nada que possa impedir os jovens de terem uma vida sexual ativa, independentemente da idade que ela comece. Proibir não seria uma opção cabível, afinal durante muito tempo o sexo foi decretado como pecado pela Igreja Católica e nem isso conteve o avanço e a liberdade sexual que hoje é presenciada. Então, descartada a possibilidade da proibição e de tratar todo essa sexualidade exacerbada como algo vergonhoso ou mesmo um tabu, especialistas orientam os pais e educadores a tratar de sexo como algo comum.
Contudo, é difícil para alguém que não foi educado sexualmente pensar em conversar com o filho a respeito de sexo. A informação, apenas, é muito pouco, saber que tem que usar pra evitar doenças e gravidez indesejada não são artifícios suficientes. O jovem tem uma tendência a buscar o prazer imediato, além disso, os mitos sobre o uso do preservativo entre os grupos jovens são muito fortes. Acredita-se em situações irreais como transar com preservativo se assemelha a chupar bala com papel, ou a possibilidade de perder a ereção na colocação do preservativo, entre outros, dificulta o uso deste e se opta pelo risco, afinal de contas este também gera uma adrenalina muito bem vinda entre os jovens.
O adolescente Rodrigo, hoje com 17 anos, teve sua primeira experiência aos 14, por sentir-se pressionado pelos companheiros que já haviam perdido a tão temida virgindade tardia. Ele confessa a falta que sente de um diálogo dentro de casa e ainda acrescenta que devido a esse fator troca informações a respeito do tema com amigos e com desconhecidos na internet. Ainda acrescenta que a maioria dos seus amigos não usa camisinha com a desculpa de que ela diminui o prazer, além de assumir o não uso do preservativo em algumas transas e que contou com a sorte como fator decisivo para o risco de gravidez e contaminação por meio de doenças sexualmente transmissíveis, mesmo tendo consciência dos mesmos. “Os pais devem se mostrar abertos para falar com seus filhos sobre qualquer assunto, colocarem-se disponíveis a tirar duvidas de forma madura e sem mentiras”, ressalta Cristiane. Ela acrescenta que dizer que sexo não é bom e faz mal é uma mentira, mas têm que ser esclarecidos os riscos de um sexo inseguro e promiscuo. Segundo ela, os pais devem entender que sexo e sexualidade fazem parte da rotina de seus filhos jovens ou adolescentes e que não adianta fingir que isso não acontece. Falar sobre isso sem rodeios, abertamente, expondo os prós e contras do início precoce de uma iniciação sexual. “Importante também é não antecipar as informações, esperar que esse filho venha e questione, por isso a importância de se mostrar aberto a conversar com os filhos sem pudores e julgamentos, abrindo a porta do diálogo na relação pai-filho”, aconselha Cristiane.

Alexandre Rodrigues