quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Sexo: Conversa de gente grande

Quem acha que só adultos falam de sexo se engana. Os adolescentes também falam e fazem.


Conversa 1: Alexandre Rodrigues - Posso te fazer algumas perguntas? Preciso mesmo de material para o meu trabalho; sa_gatinha - O que você quer saber?; AR - Tem que idade?; sa_gatinha – 17; AR – Onde reside?; sa_gatinha – São Paulo; AR – Você já possui vida sexual ativa?; sa_gatinha – Já; AR – E com que idade foi sua primeira experiência?; sa_gatinha – Com 15 anos; AR – E os seus pais sabem?; sa_gatinha – Ainda não; AR - Então creio que sexo não seja um assunto bem tratado em casa correto?; sa_gatinha - A minha mãe só fala pra eu me previnir; AR - Mas não conversa sobre sexo, muito menos procura saber da sua vida sexual, é isso?; sa_gatinha – É.
Conversa 2: AR - Podemos conversar?; gatinho_msn – Sobre qual assunto?; AR – Sexualidade Juvenil; gatinho_msn - Você vai fazer as perguntas?; AR – Isso; gatinho_msn – Pode fazer; AR – Você tem que idade?; gatinho_msn – 15; AR – Onde reside?; gatinho_msn – Santa Cruz, Pernambuco; AR – Já possui vida sexual ativa?; gatinho_msn – Ainda não, mas estou no caminho; AR – Poderia me definir a expressão “no caminho”?; gatinho_msn - Estou "ficando" e como você sabe às vezes acontece e às vezes não; AR – Então você ainda não transou “oficialmente”, mas já teve alguma experiência sexual? Refiro-me a sexo oral ou possibilidades similares?; gatinho_msn – Não transei e nem tive qualquer experiência, mas tenho amigos que já tiveram; AR - Entendo, e o fato de seus amigos já terem tido, de alguma forma, te pressiona para que as tenha também?; gatinho_msn - Às vezes sim, pois nas rodinhas de amigos na maioria das vezes só se fala nisso e o cara não ter nada para falar fica complicado; AR – Você e/ou seus amigos conversam com os pais a respeito de sexo?; gatinho_msn - Meus pais sempre tiveram um diálogo comigo, principalmente, a respeito de sexo; AR - Sabia que isso não acontece com todo mundo? Seus amigos também conversam com os pais deles?; gatinho_msn – Sim. Eu sei que isso é para poucos e a maioria de meus amigos não tem esse dialogo com os pais; AR – Você acredita que se os pais tratassem com mais naturalidade o assunto sexo o número de adolescentes grávidas e/ou com DST´s diminuiria?; gatinho-msn - Diminuiria e muito, pois se os pais tivessem o dialogo os jovens não procurariam os amigos para tirar suas dúvidas, afinal são os pais que eles levam a serio; AR - Você conseguiria me definir, para você, o que é sexo?; gatinho_msn – Uma fase da vida.

A realidade da maioria dos adolescentes brasileiros, como mostram os diálogos que percorrem essa página, é recheada de informação e facilidade no acesso a conteúdos variados. Entretanto, o direcionamento educacional e familiar não é proporcional ao volume de informações quando o assunto em questão é sexo. Os diálogos acima foram transcritos de uma sala de bate-papo, na qual não existe nenhum tipo de vínculo entre as partes envolvidas.
Segundo pesquisa realizada no primeiro semestre desse ano com alunos de 270 escolas particulares brasileiras, pelo Portal Educacional, entidade responsável pela aplicação dos questionários, dos 1.383 jovens que participaram 25% tiveram a primeira relação sexual aos 14 anos, 19% responderam que tiveram a experiência com pelo menos cinco parceiros e 22% afirmaram ter perdido a virgindade até os 16 anos. Mais: 14% já fizeram sexo com alguém que conheceram pela internet e 42,3% acharam ter engravidado alguém, no caso dos meninos, ou ter ficado grávida, no caso das meninas.
Os fatores que levam ao aumento desses dados de maneira agressiva não foram diagnosticados ainda, mas especialistas já indicam possíveis culpados, ou agravantes, para esta situação. A psicóloga Cristiane Vieira, formada pela faculdade Ruy Barbosa, aponta as mídias audiovisuais como excitadoras do público juvenil para o ato sexual. Segundo ela, “a mídia passa uma visão às vezes romântica e irreal da iniciação sexual, dificilmente existe o apelo do uso do preservativo e as conseqüências do seu não uso, e sim do quão mulher, feminina se sente a adolescente e o quão viril se sente o adolescente. Mostram-se jovens belos que tem uma sexualidade livre, aberta, e sem responsabilidade, o apelo ao exercício da sexualidade é crescente, é só olhar as novelas, os filmes, as séries americanas”.
Teorias à parte, o fator concreto para essa demanda de jovens irresponsavelmente ativos no que diz respeito à vida sexual não se dá pela falta de informação, pois esta existe, mas, sim, pela falta de naturalidade com que o assunto é tratado em ambientes ditos “convencionais”, como o familiar e o escolar. Quando se fala em educação sexual, vêm à tona os preconceitos que permeiam a vida de muitos indivíduos fazendo desse um assunto praticamente incabível para uma conversa a se ter com filhos. A falta de diálogo leva o jovem a sanar suas inúmeras dúvidas com amigos, sites de conteúdo adulto, ou qualquer outro meio que, ao invés de esclarecê-lo, o pressionará a testar esses conhecimentos na prática, é o que afirma Cristiane.

Síndrome do “meu chefe mandou”

Além da falta de comunicação, entra em cena uma outra perspectiva um tanto quanto delicada: o convívio em um grupo social, que para os meninos a pressão é ainda maior. Remetendo à idéia da brincadeira “meu chefe mandou”, comum na infância dos, hoje, adultos, em que uma criança era escolhida e considerada o chefe e os demais eram encarregados de copiar tudo que ele fizesse. É assim, também, em um grupo de amigos, no qual aquele que primeiro perdeu a virgindade ou tem uma vida sexual mais ativa entre eles é idolatrado pelos companheiros e transforma-se numa espécie de exemplo a ser seguido pelos demais. Todo esse endeusamento já é comum até por um fator histórico, no qual a imagem de virilidade sempre fora atribuída ao homem fértil, ao garanhão e, usando os termos atuais, o “pegador”. Já entre as meninas, toda a construção histórica da mulher, símbolo da feminilidade, da doçura, vem dando lugar a sensualidade e independência trazida pelo feminismo. As meninas que, antes, tratavam a virgindade como um troféu a ser carregado até a noite de núpcias, hoje igualam-se aos meninos diante de uma vida sexual agitada e com grande número de parceiros. Entre elas, também, há a figura forte, representada pela mais ativa sexualmente, porém, mais atuante do que a idolatria, é a censura contra as que se mantêm virgens por um tempo maior do que, pra elas, considerado normal (idade essa entre os 15 e os 17 anos).
Para Cristiane, “existe hoje uma liberação sexual mais intensa do que há alguns anos. Atualmente, os jovens iniciam sua vida sexual pra se sentirem aceitos dentro do seu grupo social. A curiosidade sobre a sexualidade, que é inata do humano, tem hoje uma situação mais favorável para ser vivenciada, pois não há mais uma preocupação com a virgindade feminina, sendo esta até ridicularizada algumas vezes”.
E vilões não faltam para creditar ainda mais tensão nessa luta contra uma vida sexual monótona. Em chats, a qualquer hora do dia é possível encontrar um enorme contingente de jovens distribuídos em salas de conteúdos que vão desde a localidade onde moram, passando por faixa etária desejada, até ambientes nos quais é possível alem de conversar ver fotos e vídeos de conteúdo adulto. Os nicks (apelidos usados como identificações) são dos mais variados, alguns singelos, outros pornográficos que se encontram por todo tipo de assunto em comum, e o mais comum deles: sexo.

Naturalidade

Diante de tantos instrumentos contra uma vida sexual saudável para os jovens, a pergunta seria: o que fazer para impedir toda essa mobilização a favor do sexo na adolescente? A resposta é simples: nada. Baseado no depoimento de especialistas, não há nada que possa impedir os jovens de terem uma vida sexual ativa, independentemente da idade que ela comece. Proibir não seria uma opção cabível, afinal durante muito tempo o sexo foi decretado como pecado pela Igreja Católica e nem isso conteve o avanço e a liberdade sexual que hoje é presenciada. Então, descartada a possibilidade da proibição e de tratar todo essa sexualidade exacerbada como algo vergonhoso ou mesmo um tabu, especialistas orientam os pais e educadores a tratar de sexo como algo comum.
Contudo, é difícil para alguém que não foi educado sexualmente pensar em conversar com o filho a respeito de sexo. A informação, apenas, é muito pouco, saber que tem que usar pra evitar doenças e gravidez indesejada não são artifícios suficientes. O jovem tem uma tendência a buscar o prazer imediato, além disso, os mitos sobre o uso do preservativo entre os grupos jovens são muito fortes. Acredita-se em situações irreais como transar com preservativo se assemelha a chupar bala com papel, ou a possibilidade de perder a ereção na colocação do preservativo, entre outros, dificulta o uso deste e se opta pelo risco, afinal de contas este também gera uma adrenalina muito bem vinda entre os jovens.
O adolescente Rodrigo, hoje com 17 anos, teve sua primeira experiência aos 14, por sentir-se pressionado pelos companheiros que já haviam perdido a tão temida virgindade tardia. Ele confessa a falta que sente de um diálogo dentro de casa e ainda acrescenta que devido a esse fator troca informações a respeito do tema com amigos e com desconhecidos na internet. Ainda acrescenta que a maioria dos seus amigos não usa camisinha com a desculpa de que ela diminui o prazer, além de assumir o não uso do preservativo em algumas transas e que contou com a sorte como fator decisivo para o risco de gravidez e contaminação por meio de doenças sexualmente transmissíveis, mesmo tendo consciência dos mesmos. “Os pais devem se mostrar abertos para falar com seus filhos sobre qualquer assunto, colocarem-se disponíveis a tirar duvidas de forma madura e sem mentiras”, ressalta Cristiane. Ela acrescenta que dizer que sexo não é bom e faz mal é uma mentira, mas têm que ser esclarecidos os riscos de um sexo inseguro e promiscuo. Segundo ela, os pais devem entender que sexo e sexualidade fazem parte da rotina de seus filhos jovens ou adolescentes e que não adianta fingir que isso não acontece. Falar sobre isso sem rodeios, abertamente, expondo os prós e contras do início precoce de uma iniciação sexual. “Importante também é não antecipar as informações, esperar que esse filho venha e questione, por isso a importância de se mostrar aberto a conversar com os filhos sem pudores e julgamentos, abrindo a porta do diálogo na relação pai-filho”, aconselha Cristiane.

Alexandre Rodrigues

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Educação Cultural: o desafio do novo milênio

Dos desenhos em cavernas à contemporaneidade a arte acompanha a história do homem. No entanto, o reconhecimento e apreciação da mesma enquanto forma de expressão, enquanto comunicação ainda é algo excluído da vida diária dos baianos.
Com impressionante diversidade cultural e apesar dos avanços, a Bahia ainda não consegue fazer do hábito de interagir com a arte algo comum. Um dos agravantes de toda essa resistência é a falta de educação e estímulo para que esse distanciamento seja aos poucos vencido.
Não se pode considerar a falta de atrações do tipo na capital soteropolitana, pois nessa as opções são muitas, porém o que não corresponde à proporção é o público. Teatros quase vazios, com público considerável, ou na melhor das hipóteses “quase” cheio, essa é a realidade com a qual os artistas convivem em sua maioria. Segundo Daniel Moreno, estudante de medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e integrante de um grupo independente de teatro, “a falta de abertura da mídia para a divulgação e a dificuldade em encontrar patrocínios e apoios, já que é muito caro montar e colocar um espetáculo em cartaz, são alguns dos agravantes para o desinteresse do próprio espectador”.
Um fato relevante para todo esse entendimento da falta de interesse dos baianos por arte, é a não educação para esse tipo de expressão. Durante toda a vida escolar uma criança é obrigada a conviver com a matemática, a física, a história, e tantas outras matérias que compõem a grade fixa de qualquer estabelecimento de ensino, mas por que não acostuma-la e/ou incentiva-la a apreciar a arte?
Dentre tantas matérias obrigatórias no currículo escolar, muito poucas instituições reservam espaço para algo que se aproxime do conceito de Educação artística, e quando o fazem limitam-se a reduzi-la a pinturas, desenhos e maquetes. Segundo a Marta Sabath, Psicóloga e Licenciada em Dança, “as escolas deveriam reservar um momento para levar os alunos ao teatro, a espetáculos de dança, fazer com quem eles vivenciassem isso para que isso se torne habitual”. Ela ainda afirma que “não só a escola, mas tem que fazer parte da rotina da família levar os filhos ao teatro, educação vêm de casa, não necessariamente as crianças vão gostar ou querer aquilo, mas se de duzentas, dez gostarem e quiserem voltar isso é uma vitória”.
Todo esse conceito de educar através da arte, tem tido seu pontapé inicial e sua realização mais concreta através de instituições sociais que usam esse principio como subsídios para o resgate de crianças marginalizadas. Entre muitas instituições está o Projeto Axé.
Fundado em 1990, pelo florentino Cesare de Florio La Rocca, educador e advogado, nasce em Salvador um projeto que já vinha sendo pensado e estruturado cinco anos antes, o Projeto AXÉ. Incentivado pela organização italiana não governamental de cooperação internacional, Terra Nuova, e pelo Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua e com clara atuação política e pedagógica, instala-se com o objetivo de resgatar crianças e adolescentes que vivem nas ruas, ou filhos da exclusão, como os denomina Cesare, dando-lhes educação de qualidade.
O projeto, que atende hoje aproximadamente 1.500 crianças e adolescentes, começa nas ruas, nas chamadas Escola a Céu aberto, onde educadores instruídos fazem um trabalho de conscientização e estímulo para seduzi-las. Segundo Caubi Nova, professor de História que trabalha como Assessor e Educador Popular do AXÉ, “o intuito é fazer com que essas crianças queiram vir para o AXÉ, não que sejam trazidas, mas que venham por elas mesmas”.
Incluídas efetivamente no projeto, essas crianças são dividas em grupos de acordo com suas necessidades e idade. Crianças entre 4 e 11 anos são encaminhadas para o Canteiro dos Desejos, espaço pedagógico que trabalha o lúdico, o imaginário e a cultura infantil tentando viabilizar a contemplação das diversas áreas do conhecimento. Jovens com idade superior a 11 anos são encaminhados a uma das Unidades Educacionais do Pelourinho, Unidade de Dança e Capoeira e Unidades de Profissionalização que atendem jovens de 12 a 18 anos, para a qual o projeto disponibiliza oficinas e companhias. Dentre elas está a Usina da Dança, que engloba a Escola de Dança Gicá e a Cia. Jovem de Dança, e trabalha com uma ampla visão cultural levando em consideração as manifestações expressivas das vidas e experiências vivenciadas pelas crianças. Destacando a cultua local e das manifestações étnicas universais, preocupa-se com a coerência dos seus conceitos éticos e estéticos e não apenas com a performance técnica interpretativa. Da mesma forma atua a oficina de Teatro, em parceira com o Teatro XVIII, no qual se apresentam espetáculos do projeto, e a oficina de Música, denominada Casa dos Sons (Canto Coral e Individual, Capoeira, Instrumentos Musicais e BANDAXÉ), que conta com o apoio indireto de artistas baianos como Caetano Veloso e Gilberto Gil, que cedem espaços em seus shows para apresentação do grupo percursivo do AXÉ. Como pré-requisito, é obrigatório fazer parte da oficina de capoeira pelo tempo mínimo de um ano, como incentivo ao conhecimento e contato da cultura popular local.
Jovens com idade a partir de 16 e limite de 24 anos são incluídos no campo de trabalho em uma das Empresas Educativas (Modaxé, Stampaxé, Casaxé e Opaxé), onde vivenciarão desde a formação e construção de um pensamento e visão mercadológica do mundo atual, até a criação e confecção de materiais de consumo básico, como roupas. Essas empresas visam preparar o jovem para o convívio no mercado de trabalho, além da educação para a cidadania e a construção de seus próprios projetos de vida pessoal e social, nutrindo sua consciência de direitos e deveres. Para esses jovens é disponibilizada uma bolsa auxílio de R$185,00 (cento e oitenta e cinco reais) como ajuda de custo, além de cachês dos que atuam em alguma das Cia. em apresentações municipais, nacionais e internacionais.
Educar através da cultura é fazer funcionar, assim, a teoria de que a partir da descoberta que o diálogo entre a arte e a educação e os conflitos provenientes dessa fusão, produzam estímulos cognitivos e sensoriais que são fundamentais para o entendimento da vida, que desloca os jovens de um patamar restrito e sem perspectivas, para uma percepção de que há na vida, um tempo e um espaço infinitos a serem conquistados.

Alexandre Rodrigues

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Para Yemanjá oferendas, para o mar lixo.

Dia 02 de fevereiro, dia de festa em Salvador. A rainha do mar é homenageada com muitos presentes e muita alegria. O simbolismo do candomblé mobiliza a capital baiana. Oferendas são jogadas no mar como demonstração de fé. Mas onde estão as notícias informando a quantidade de lixo que é despejado no fundo do oceano Atlântico?
Há oitenta e cinco anos acontece anualmente a festa em homenagem a rainha das águas, Yemanjá. Uma fila de fiéis se aglomera todo dia dois de fevereiro para demonstrar sua fé através de oferendas feitas em retribuição a graças alcançadas, ou em desejos a serem atendidos pela majestosa sereia. E nada abala essa legião que cresce de maneira exorbitante, como se proliferasse em uma progressão geométrica de um ano para o outro e com eles os presentes: bibelôs, flores, perfumes, jóias.
Segundo reza a crendice popular, todo agrado feito pode ou não ser aceito pela mãe das águas, dependendo do merecimento de quem o oferece e/ou do gosto pelo mimo da sereia. O que é recusado volta das profundezas e é jogado na maré que o trará de volta a areia da praia. O que é aceito desaparece no fundo do mar. Mas será que desaparece mesmo?
Segundo comparações feitas entre os sites lixo.com.br, pescacananeia.com.br e informações cedidas pelo Centro de Recursos Ambientais – CRA – de Salvador, foram analisados matérias como papel, pano, madeira pintada, nylon, alumínio, metal, plástico, vidro e borracha .
O papel precisa de um tempo aproximado para total degradação que pode variar de três a seis meses. O pano entre seis meses e um ano. Madeira pintada entre treze e quatorze anos. Nylon, mais de trinta anos. Metal, mais de cem anos. O alumínio possui uma variação de tempo que vai de oitenta a quinhentos anos para ser decompostos integralmente. Plástico, de cem a quatrocentos e cinqüenta anos. E um dos mais inacreditáveis, o vidro que tem tempo de decomposição com variação de quatro mil a um milhão de anos, só perdendo para a borracha que ainda possui tempo de vida indeterminado.
Simbologias a parte, e tomando como base os valores mais baixos de cada um dos itens avaliados façamos uma comparação fria destes. O papel e o pano jogados ao mar serão totalmente desintegrados antes mesmo que os turistas voltem para o próximo carnaval. A madeira utilizada para a construção do suporte das embarcações simbólicas que carregam as oferendas será totalmente decomposta antes que uma criança que acaba de nascer debute. O nylon, por sua vez, sumirá do fundo do oceano antes que essa mesma criança chegue à meia idade, considerando esta por volta dos cinqüenta anos. O alumínio poderá ultrapassar o tempo de vida dessa criança já que a média da população baiana está entre sessenta e oitenta anos, e o material tem seu menor tempo de decomposição estipulado em oitenta anos. O metal e todo material plástico depositados no ano de nascimento, ainda da criança hipotética, estará no fundo do mar quando ela for enterrada. O vidro seguirá por gerações descendentes dessa criança antes que possa ser totalmente desintegrado.
Se toda essa analogia sentimentalista ainda não se fez suficiente, sejamos ainda mais lógicos, tomando como objeto de estudo o vidro. Este material tem o menor tempo aproximado de quatro mil anos para ser totalmente desintegrado no ambiente. Se a primeira festa em homenagem a Yemanjá foi a oitenta e cinco anos, é fato afirmar que qualquer material feito de vidro oferecido à sereia, ainda hoje estará em processo de degradação no fundo das águas.
Todo este estudo feito até o momento é do material que teria sido “aceito” pela entidade. Mas não descartemos, ainda, o que é “rejeitado” pela mesma.
Segundo o Sr. Raimundo dos Santos, pescador que faz parte da colônia do bairro do Rio Vermelho, a quantidade de oferendas que retornam a praia tem oscilações consideráveis durante os anos. Quando questionado sobre o quanto o material depositado no mar pode interferir no ecossistema marinho, ele afirma não atrapalhar, já que tudo é jogado a duas horas da costa. O fato é que, independente da quantidade de lixo que volta a praia, uma parte dele sempre volta, deixando o litoral do Rio Vermelho e bairros vizinhos com aspecto imundo. Raimundo ainda afirma que o lixo trazido à praia é recolhido pela prefeitura nos dias que seguem a manifestação.
Um dos combatentes contra a poluição das praias baianas é o Grupo Ambientalista da Bahia. O gambá, como também é conhecido, desde 1985 demonstra sua preocupação pelo litoral baiano quando lançou a campanha “Amar o Mar”, A intenção era chamar a atenção da população e das autoridades para a situação das águas soteropolitanas. O resultado dessa ação foi a instalação do monitoramento sistemático da qualidade de água do mar pelo Centro de Recursos Ambientais (CRA). E este foi só o primeiro passo. Depois de lançada a campanha, o governo estadual começou o estudo para a criação de um programa voltado para a despoluição da Baía de Todos os Santos, com intervenções nas áreas de esgotamento sanitário, abastecimento de água, coleta e destino final do lixo e controle da poluição industrial. E essa mobilização não parou por ai. Em 2003 lança um projeto intitulado “Por dentro do Bahia Azul”, propondo avaliar cada uma das metas do programa e o seu cumprimento, ao mesmo tempo em que assumia o papel de incentivador apontando soluções para a despoluição da Baía de Todos os Santos. Hoje o Gambá acompanha as ações do governo para solucionar os problemas ambientais da cidade através do projeto “Observatório de Políticas Públicas”.
Em entrevista com a assessora de comunicação Aline Leão Amoedo, ela afirma ser delicado lidar com educação ambiental, já que esta vai de encontro a fatores como sincretismo e fé de um povo. Porém, não nega que todo o material despejado no Atlântico interfira no ecossistema marinho como um todo.A fé e a crença nos poderes do Orixá das águas salgadas são fatores inflexíveis para serem questionados, porém se deve haver questionamento então que seja feito sobre o futuro da vida marinha e o quanto isso pode interferir no futuro de um planeta que já briga contra um colapso ambiental.
Alexandre Rodrigues

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Dança Comigo?


Tango, bolero, salsa, forro, lambada, zouk, a dança de Salão virou moda. Considerada por muito tempo “coisa de velho”, a técnica alcança o público jovem multiplicando a procura por escolas especializadas.
Depois de muito tempo considerada algo feito apenas pelo público mais maduro, que sempre participou da manifestação, a técnica se renova ganhando jovialidade nos salões de baile, tornando assim, inevitável a percepção da influência da mídia. Um dos quadros de um programa de televisão tem conseguido alcançar um elevado índice de audiência e contribuído para essa mudança, a Dança dos Famosos, exibido no programa do Faustão, nas tarde de domingo, repercutiu de forma positiva, aproximando o jovem da arte da dança de salão e extraindo deles o conceito pré-estabelecido de que só seus avós o faziam.
Marcelo Galvão, 24 anos, estudante do curso de Dança da Universidade Federal da Bahia, começou a dançar aos 15 e hoje dar aulas no seu próprio espaço de dança. “O pensamento de que dançar é coisa de velho já estava sendo, paliativamente, descontruído. Tenho alunos que, assim como eu, começaram bem jovens e tem atraído atenção de amigos, parentes, despertando curiosidade. Mas não se pode negar que a repercussão da Dança dos Famosos é de grande apoio à dança de salão, que por muito tempo ficou resumida a aulas em escolas e bailinhos” – referindo-se a locais de pequenas reuniões de pessoas com o intuito de dançar.
Além da técnica, todo um sistema de regras tem que ser obedecido pelos dançarinos, sempre com noções de respeito entre o casal e, também, com os demais na pista. Segundo Sônia Bamberg, professora de dança de salão e criadora da Bamberg Cia de Dança, grupo que realiza apresentações em eventos e bailes da cidade do Salvador e tem como dançarinos jovens de 10 a 24 anos, “um cavalheiro que aprende a conduzir uma dama de forma sutil respeitando seus limites e conquistando sua confiança, jamais tratará outra mulher de forma diferente, por sua vez, uma mulher que permite ser conduzida por um cavalheiro precisa confiar em si própria, então através da dança estamos despertando nesses jovens autoconfiança e respeito ao outro”.
Contudo, vale salientar que o material apresentado no programa também preocupa os professores, no sentido de que as coreografias ensaiadas em um período curto de tempo exibem movimentos acrobáticos que são desenvolvidos com certa experiência e próprios para serem apresentados no palco, já que não caberiam no salão. “Há aqueles que chegam à academia e dizem que querem fazer o que viram na TV e quando se explica que aquilo ele pode ser feito sim, mas não em uma semana como no programa, então eles questionam, reclamam, pois se o artista conseguiu então eles também conseguiriam. Bem, aquelas pessoas não aprendem a dançar, aprendem, sim, uma coreografia montada para ser apresentada em um programa de TV, além de ter um profissional à disposição delas durante toda a semana”, explica Marcelo.
Contudo, as mudanças são gradativas e o número de rapazes adeptos, apesar do aumento considerável, ainda é um problema para os professores, por isso escolas de dança de salão fornecem bolsas para jovens que se interessem pela técnica. Porém, independente dos empecilhos e dos motivos que estão levando as mudanças conceituais dos jovens em relação à dança, é relevante o apreço do envolvimento dos mesmos, direcionando a energia da juventude para algo saudável e desprovido de toda violência que assola, ainda, a vida de uma grande parcela desses jovens.


Alexandre Rodrigues

sábado, 29 de dezembro de 2007

O que é ser homem e o que é ser mulher na sociedade contemporânea.

Tema da redação da segunda fase da UFBA 2008.

Não se faz mais mulheres como antigamente. Elas eram educadas, dóceis, cordiais, um tanto serviz, mas de uma doçura irresistível. Hoje vão para as ruas, trabalham, dividem contas, competem de igual para igual com o gênero masculino. Esta é a mulher formada por séculos de história.De donas de casa e esposa/mãe dedicada à trabalhadora assalariada e independente. Numa sociedade sempre machista, a mulher alcança níveis sociais jamais imaginados por homens e mulheres, sim mulheres. Queimadas nas fogueiras da inquisição acusadas de bruxaria, condenadas por traição, deserdadas por desonra, mulheres a frente do seu tempo que pagaram por desafiar os padrões morais de suas épocas.Veio o progresso, revoluções industriais, elas ganham o direito ao trabalho e mais uma vez sua, suposta, fragilidade é colocada a prova, se rendendo a condições escravocratas de trabalho e sem direitos a reivindicações. As que ousaram foram queimadas vivas em meio a uma greve. Hoje existem personagens infantis que incentivam a independência feminina, que o diga Maurício de Souza, criador da brigona e irreverente Mônica, e a lista se estende.Era mais fácil ser homem quando, outrora, a sociedade considerada patriarcal correspondia ao título. Porém, apesar de ainda valer a regra em casos irrestritos, essa realidade se esvai, assim como as estórias de ninar. A fragilidade, antes aferidas a elas, agora choca-se na face masculina que, além de tê-las como igual, não resistem ao charme e ousadia natural de uma mulher.

Alexandre Rodrigues

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Uma luz na escuridão

“Nestas noites das noites da rua, eu canto a autora...
Nestas noites escuras sem lua, eu canto a aurora...
Um sorriso de dor, a ternura... Aurora da Rua...”

Primeiro jornal de rua escrito e comercializado por moradores de rua, o Aurora da Rua, lançado em 24 de março do ano corrente chega a seu quarto fascículo e a 23 estados do país com um jeito singular de se fazer um jornal.
Projeto do irmão Henrique, como prefere ser chamado, francês residente no Brasil há 20 anos, é realizado na comunidade da Trindade, localizada no bairro da Água de meninos, na cidade baixa de Salvador, composta por aproximadamente 40 pessoas. O Aurora da Rua tem o objetivo não de fazer caridade, mas de fornecer oportunidade. Quer falar da rua através do ponto de vista de quem mora nela, apresentar as belezas e os horrores pela visão de quem vive nessa situação.
Todo o conteúdo é produzido por moradores de rua em oficinas orientadas e assessoradas por uma equipe de cinco jornalistas e quatro estudantes de jornalismo que recolhem todo material e os editam para serem vinculados no jornal. Depois de pronto, o jornal é passado aos vendedores pelo valor de R$0.25 (vinte e cinto centavos de real) para ser revendido por R$1.00 (um real), dando-os um lucro de 75% de cada exemplar vendido, diferente dos jornais convencionais nos quais o lucro é de R$0.05 (cinco centavos de real) por exemplar e ainda é exigida uma meta a ser cumprida.
Impresso bimestralmente, em papel de 65 gramas, colorido, com oito páginas e tiragem de 10.000 exemplares, tem elevado preço de produção que não é sustentado pela venda dos exemplares, já que todo o lucro é de quem os vende. Não possuindo anunciantes, o jornal tem parte de seu sustento derivado de assinaturas particulares que, hoje alcançam o numero de 200 assinantes espalhados por 23 estados no território brasileiro. Além disso, têm-se, ainda, assinaturas empresarias responsáveis pela maior parte da verba que financia o jornal que, em seu projeto de venda, cobram um valor maior do que o preço cobrado para as vendas diretas e para as assinaturas particulares. “Informamos às empresas que pagando um pouco mais pelo mesmo material eles estão garantindo que os vendedores continuem comprando o jornal com preço muito baixo sem que a qualidade seja perdia”, explica Henrique.
Todos os vendedores do jornal estão ou já passaram por condições de rua e, para venderem o jornal, passam por um treinamento específico. Ainda, recebem auxilio psicológico e participam de encontros com empresários, psicólogos e pequenas reuniões entre eles. O que se busca com toda essa preparação é modificar o pensamento dos vendedores mostrando que eles deixam de exercer uma relação de pedinte e caridoso, para exercer uma relação cliente e vendedor. Para que ainda seja mais clara essa relação e até mesmo a identificação dos vendedores do Aurora, eles recebem um material de uniformização composto de colete azul com marca e vendedor escrito no verso, boné com a marca do jornal, crachá de identificação com foto, nome e a marca do "Aurora da Rua” e bolsa azul com a marca "Aurora da Rua" para carregar os jornais.
Cada um desses vendedores monta a sua própria rotina de trabalho, estabelecendo onde e quanto tempo passam vendendo o jornal. Além disso, não há desperdício, pois os exemplares de uma edição anterior à lançada podem ser trocados por exemplares da nova edição na sede do jornal sem custo adicional. O interesse do projeto é fornecer oportunidade de trabalho aos que precisam, reinserindo-os na sociedade.
“O jornal é uma passagem, fornecemos oportunidade a essas pessoas saírem das condições de rua na qual vivem e possam voltar a ter uma vida” afirma Henrique.


Alexandre Rodrigues

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Sim, eu falo!


Crianças e jovens portadores de deficiência auditiva estão sendo preparados para o convívio social, através da educação não-formal da Federação de Bandeirantes do Brasil, em parceira com o Centro de Integração Escola e Lazer – CIEL. Projeto da Presidente do movimento bandeirante na Bahia, Letícia Dantas mostra que pessoas surdas são capazes de viver como pessoas sem nenhum comprometimento.
Criado em 1909 na Inglaterra por Robert Baden-Powell, ou BP como ficou conhecido, o Movimento Bandeirante começa intitulado de Girls Guides (Meninas Guias), como o próprio nome já diz, apenas para meninas. E assim foi, até 1960, quando no Brasil as portas para o bandeirantismo são abertas para meninos e rapazes. No entanto, a data da chegada ao Brasil é de 1919, quando através de uma carta enviada por BP propondo a fundação do movimento no país, e adotada pela Sra. Jerônyma Mesquita, conhecida por trabalhos educacionais e sociais, tendo em sua primeira turma 11 meninas que no dia 13 de agosto de 1919 realizaram a primeira cerimônia de promessa.
Organização civil de âmbito nacional, sem fins lucrativos, de educação não-formal e voltada para o público infanto-juvenil, adota a missão de preparar cidadãos através de experiências de convívio em grupo, de respeito ao próximo e do cultivo de valores para combater o individualismo e a passividade que se fazia sentir já no início do século XX, Baden-Powell cria a Promessa Bandeirante e o Código, caracterizado como conjunto de normas e atitudes fundamentais à vivência do Bandeirantismo.
“Prometo, sob minha palavra de honra, que farei o melhor para:
Ser leal a Deus e a minha pátria
Ajudar o próximo em todas as ocasiões e
Obedecer ao Código bandeirante”.
Tratando de método educativo, o bandeirantismo possui oito pilares interdependentes: vivência do Código e da Promessa Bandeirantes, convivência e trabalho em equipe, aprender fazendo, auto-progressão, vida ao ar livre, expressão e simbolismo, convivência entre jovens e adultos e serviço na comunidade.
Hoje, a Federação de Bandeirantes do Brasil (FBB), 88 anos após sua implantação no país, faz-se presente em 15 estados, com cerca de 1.000 voluntários que trabalham com mais de 7.000 crianças e jovens participantes do movimento.
Foi pensando na educação moral desses jovens que participam do movimento, e com a pretensão de ter essa proposta estendida pelos grupos espalhados pelo Brasil que a Assistente Social e Presidente da FBB da Bahia, Letícia Dantas, eleita pela primeira vez aos 23 anos, cria o projeto Bandeirantismo na Diversidade, visando à inclusão de jovens portadores de alguma necessidade especial. Bandeirante desde os 13 anos de idade, Letícia deparou-se com a perda auditiva de sua filha caçula, que com menos de dois anos foi vítima de uma infecção urinária, que ganhou maiores proporções levando a criança à UTI em estado grave. Para que a situação da menina fosse estabilizada, os médicos aumentaram consideravelmente as doses constantes de medicamentos, o que a salvou. Porém, todo aquele bombardeio de remédios causou a surdez na criança. “Por um lado agradeço a Deus, por ter deixado a surdez, mas ter deixado ela viva”, emociona-se Letícia.
Depois de enfrentar todas as dificuldades para conseguir tratamento específico e da busca por fazer com que sua filha tivesse uma vida normal e voltasse a ser oralizada, Letícia, após muita luta, ganha fôlego para levar essa história como exemplo para uma proposta ainda maior. Bandeirante de coração, retorna à FBB para reerguer o movimento, que nessa época estava quase se findando na Bahia, e começa uma luta em prol dos que eram deixados à margem da sociedade. Mesmo com sua proposta inovadora e destemida, o receio de abandonar tudo que construíra até então ainda a fazia resistir, quando inesperado aconteceu: a empresa na qual Letícia trabalhava entra em concordata e tem o quadro de funcionários reduzido a um quarto do total. Sem emprego, ela começa a viabilizar o seu sonho, e em 1994 funda o CIEL – Centro de integração de Escola e Lazer, preparando professores e funcionários para lidar de forma igualitária entre os estudantes do centro. “A partir daí, sempre com a proposta do trabalho de inclusão, com psicólogos, fonoaudiólogos, professores, eu como assistente social, sempre com essa mesma estrutura, interligando a terapia da área pedagógica e terapêutica”, conta Letícia. Hoje, Vivian Caroline se comunica através de leitura labial e linguagem de sinais, além de falar. Faz faculdade de educação física, trabalha no CIEL e faz parte do grupo bandeirante.
Após criar um espaço físico voltado para o público surdo, e atendendo, também, crianças e jovens portadores de alguma necessidade especial, pudessem viver a inclusão, Letícia inicia mais uma trajetória na briga contra a exclusão. Em 2004, começa a organizar o projeto Bandeirantismo na Diversidade, que só seria aprovado em 2006. Com o objetivo de preparar lideranças para levar a missão do Movimento Bandeirante às crianças e jovens com deficiência auditiva, o projeto oferece para os bandeirantes e para a comunidade acesso à realidade bandeirante e o convívio com pessoas surdas. O programa é desenvolvido através do método Bandeirante, que propõe um aprendizado com a combinação de atividades diversificadas, a partir dos interesses comuns. Buscando aplicar este conceito, cria-se em paralelo o projeto de arte e cultura, aberto para os jovens envolvidos e para a comunidade o direito ao contato com essas duas vertentes. Assim, oficinas de LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais, dança e judô são criadas para atender a proposta. Além das atividades o grupo bandeirante baiano tem um coral de LIBRAS regido pela coordenadora do CIEL, Cátia Fernanda.
. A maior proposta do programa é acabar com o conceito pré-estabelecido de que surdo também é mudo. Os portadores da deficiência não desenvolvem a habilidade da fala por não terem recebido nenhuma informação sonora. No CIEL, crianças de qualquer idade são estimuladas a torna-se oralizadas por meio de sensações como vibrações faciais e mesmo através da leitura labial. “À grande problemática vai da crença de que só tem capacidade de emitir o som quem recebe o som. Como não têm essa recepção sonora, porque possuem um bloqueio auditivo criou-se o estigma de que não podem falar. A partir daí trabalhou-se sempre a questão de que todo surdo é mudo, não o estimulando a expressão oral”, explica Letícia e ainda completa: “É provado cientificamente, que se as pessoas surdas forem estimuladas, vão sentir a vibração que existe na fala de outro indivíduo. Trabalhando com todas essas energias e possibilidades que as vibrações da região facial, bem como a vibração do chão, podem proporcionar, pelo tato, o estímulo para emitir e/ou reproduzir o mesmo som, independente de estar diretamente recebendo-o”.
Diferente de entidades que utilizando a proposta de inclusão terminam segregando os portadores de algum tipo de deficiência física ou mental, o CIEL em parceria com a FBB, acredita no “aprender a fazer fazendo” e por isso prepara os jovens para a convivência em sociedade incluindo-o nela. “Meu sonho é que as políticas públicas funcionassem, fossem levadas mais a sério e que a inclusão fosse mais do que reservar vagas em faculdades e de empregos para esses portadores de necessidades especiais, mas que eles possam ser preparados para competir e brigar pelo que eles são capazes”.



Alexandre Rodrigues